
Após anos de penosa malapata, Portugal finalmente ganhou uma competição de futebol. E logo um Campeonato da Europa. “estávamos com fome. Uma fome que vinha de longe, de trás, do Mundo “. Uma Fome de Vencer”! Após a trágica final em Lisboa de 2004, era eu ainda menino, e do alto do estádio da Luz, caí de um sonho com estrondo e acabei por reforçar o caudal de lágrimas tão portuguesas que até estranho não se ter escrito um Fado a esse dia. Ninguém antevia que esta incursão por terras gaulesas teria um final tão épico. Foi quase poético, uma espécie de homenagem aos nossos emigrantes que também por ali venceram e deixaram a sua marca na terra, nas gentes e na história. Foi um final impróprio para cardíacos em que o impasse foi resolvido por um anti-herói improvável que todos tiveram mesmo de aclamar.
Este feito desportivo para além de uma grande alegria que pude partilhar com todos os meus compatriotas (até mesmo com o meu pai que vibra, futebolisticamente, por um vermelho que não o meu), recordou-me de uma grande verdade de gestão: O Talento ganha jogos, mas são as Equipas que vencem campeonatos. Socorrendo-me de um estudioso clássico de gestão, Richard Hackman, na década de 70 que definiu muito bem os princípios basilares da eficácia do trabalho em equipa. São estas as Condições Sine Quan Non para o sucesso numa estrutura cooperativa organizada, enquadrada em ambiente competitivo (interno e externamente:
- Ter uma Visão clara – O fundamento de uma equipa é ter uma estratégia de ação definida e suportada com objetivos claros, ambiciosos, mas realistas que criem desconforto, mas evitem frustrações e que recompense performance e sucesso.
- Garantir uma Estrutura sólida – A organização das equipas é essencial para o funcionamento da mesma. Ter o número ideal de elementos, com as capacidades técnicas e/ou pessoais nas funções certas com procedimentos de gestão definidos “à prova de Idiotas” e de imprevistos.
- Criar Contexto Motivador – Dispor da informação base e necessária para o desempenho de cada função bem como apoiado por um sistema de recompensa exigente, mas vantajoso que concilie e harmonize as diferentes perspetivas e prioridades das várias equipas.
- Manter Mindset Alinhado e Partilhado – Ter uma linguagem comum, um sentido de pertença e de co-responsabilidade que potencie capacidades e catalise ambições individuais em prol do bem comum, ao invés de gerar disputas pessoais ou bloqueios profissionais. A gestão deste ponto é tão mais importante quanto maior for a organização. A sua resolução exige humildade e bom senso tanto na criação de fóruns regulares de partilha sincera e de alinhamento intra ou inter equipas funcionais
Assim, escrutinando à luz deste modelo a vitória de Portugal, é fácil perceber que esta foi uma vitória da equipa, mas com especial destaque e mérito da sua liderança. Uma liderança com 2 faces muito distintas, mas totalmente complementares: o eng. Fernando Santos e a nossa estrela maior Cristiano Ronaldo.
O engenheiro do EURO16 fez jus à sua formação e deixou obra feita. Moldou e desenvolveu uma estratégia e manteve-se fiel a essa ideia até ao final. Uniu a equipa e cerrou fileiras. Contra tudo e contra todos, independentemente das dúvidas dos adeptos, das críticas da imprensa internacional e o desdém e manobras dos adversários. Irredutível nos objetivos, mas com a flexibilidade necessária na forma. Fez ajustes razoáveis ao modelo de jogo sempre que necessário, mas sem perder ambição e sem macular a Visão e o estilo que definiu. A sua crença no sucesso era inabalável. Tanto era que escreveu a carta de agradecimento de vitória do campeonato num momento em que poucos acreditariam sequer que chegássemos aos quartos de final. Esta foi uma ótima demonstração do que é gerir a equipa de forma macro: de dentro para fora, sem perder a perspetiva do médio-longo prazo, capitalizando dos pontos fortes da equipa, trabalhando nas suas limitações sempre adaptando à leitura do contexto e estruturação e gerindo habilmente recursos limitados.
Por outro lado, o contributo de Cristiano Ronaldo ultrapassou em larga medida o virtuosismo dentro de campo a que já habituou todo o mundo. Com efeito, CR7 assumiu de corpo e alma o papel de capitão, surpreendendo tudo e todos com uma capacidade de liderança que não lhe era (re)conhecida. Penitencio-me, pois, sempre defendi que um capitão de uma equipa não deve ser o jogador mais talentoso ou mediático, mas o que tenha o perfil mais apropriado. Liderar não é um fringe benefit, é uma exigente responsabilidade. Cristiano calou as críticas e resolveu cabalmente qualquer dúvida. Primeiro liderou pelo exemplo. Não houve outro jogador que demonstrasse maior vontade de ganhar do que o capitão. Jogou fora da sua posição natural, penalizando a sua performance individual em prol da equipa. Correu, suou, lutou intensamente para continuar em jogo mesmo após a entrada criminosa de que foi vítima. Recusava-se a deitar a toalha ao chão. Até que, esgotado, teve mesmo de deitar. Marcou-me aquela expressão de Ronaldo. Jorraram lágrimas do menino que sonhou em ganhar por Portugal na cara do homem que se esforçou tanto por o conseguir. Com ele chorou todo um país e todos aqueles que ainda têm em si um pouco de lusitano… Porém, quando tudo já parecia perdido, regressou ao campo e aí ganhámos o jogo. Foram dele que saíram os insultos que garantiram a solidez defensiva no final do jogo apesar das investidas gaulesas. Foram dele que saíram as indicações táticas que garantiram a gestão inteligente do jogo a meio-campo. Foi dele que saíram as palavras de incentivo que fizeram do Rafael, Guerreiro e do Éder, herói.
Basicamente, CR7 moldou e geriu as emoções certas de cada membro da equipa, orientando, tirando dúvidas, compreendendo o que cada um precisava de ouvir e fazer naquele preciso momento para ganharmos. Haverá melhor exemplo do que é fazer a essencial microgestão de equipa?
Gerir uma equipa tem assim composição bipolar, extremamente difícil de compatibilizar e até mesmo de enquadrar numa só pessoa. Estratégia vs Execução – Propósito vs ânimo. Mesmo um Super Gestor pode considerar a missão de liderança de equipas como hercúlea. No entanto, ambas as faces da liderança são necessárias e complementares como faces da mesma moeda. Sejamos criteriosos e criativos na definição estratégica, rigorosos e determinados na execução e saibamos, a todo momento, ouvir as nossas equipas mesmo naquilo que não é dito… Se assim o fizermos, a “Sorte” favorecer-nos-á!
MixedUp?