Esta perspectiva de futuro em funil invertido em que ano após ano há uma perda sucessiva de rendimento ou até de qualidade de vida terá certamente consequências estruturais. A sociedade vai mudar em termos demográficos, na mentalidade, nas relações entre indivíduos e, naturalmente, nos comportamentos de consumo. Num contexto de carência é previsível uma reordenação das prioridades dos consumidores e uma realocação dos seus recursos entre categorias de gastos, assumindo uma postura mais crítica e racional nos momentos de compra.
Os consumidores estão cada vez mais a centrar a sua decisão no binómio satisfação de necessidade/custo, o que pode ajudar a explicar o alheamento emocional e consequente esvaziamento em termos de marcas em muitas categorias com consecutivo crescimento das marcas da distribuição (tópico a desenvolver em futuro post). Por outro lado, é comum, que em tempos de crise o corte no orçamento atinja desproporcionalmente o marketing, o que pode agravar o efeito negativo sobre as marcas. A verdade é que é possível cortar nos custos de comunicação mais facilmente e rapidamente do que nos custos de produção ou logísticos. Tal como a Harvard Business Review sugere, a gestão do orçamento e da estratégia de marketing em tempos de crise é exigente e desafiante pois existe uma grande tentação de valorizar excessivamente o curto prazo, esquecendo o conceito de valor de vida dos seus clientes/consumidores.
Em tempos de recessão económica, é de facto necessário cortar gorduras orçamentais e ser mais criterioso em termos dos gastos, exigindo um maior ROI e impacto mais imediato nas vendas dacomunicação e restantes iniciativas. Neste sentido, há um reforço da importância da gestão da variável preço face à concorrência, da calendarização da actividade promocional e da comunicação directa nos pontos de venda ou serviço, encurtando-se o espaço para o marketing indirecto como os patrocínios. Vejamos o exemplo recente das insígnias de comércio especializado que, apesar das fortes quebras que lhes são reconhecidas em 2012, têm vindo a tentar ter uma atitude muito proactiva na gestão da sua carteira dos seus clientes. Estas insígnias têm acelerado as actividades promocionais e a utilização de cupões promocionais, e-mail marketing e cartões de fidelização de forma a contornarem um pouco o abrandamento do Consumo.
A crise económica exige uma abordagem menos sexy, mais Pragmática e incisiva das marcas e empresas junto dos seus clientes, privilegiando a simplicidade e o curto prazo. Revisitar a teoria da hierarquia das necessidades de Maslow pode ajudar a compreender esta evolução já que num contexto de grande incerteza há um reforço da importância da busca básica pela Segurança (física e financeira).
Não obstante, apesar da Utopia e do Sonho, normalmente associados às marcas, serem miragens cada vez mais longínquas no horizonte, podem bem ser as únicas forças que nos poderão fazer continuar a caminhar…
Mixed Up?