A vida em funil

Portugal atravessa actualmente um período extremamente conturbado em termos económicos, demonstrando um crescente reforço de contestação social. O desemprego atingiu valores históricos (em torno dos 16%) e, para além disso, o rendimento disponível das famílias vem sendo estrangulado por um inédito incremento dos encargos fiscais das famílias em toda a linha. O próprio índice de sentimento dos consumidores portugueses confirma uma evolução extremamente negativa, sem grandes perspectivas de melhoria. A percepção internacional da situação do nosso país vem-se também agravando, tendo já sido apelidado de Poortugal pelo The Economist, sugerindo que o país cederá a uma austeridade excessiva imposta pelo (in)cumprimento do plano de pagamento da dívida aos agentes internacionais.

Esta perspectiva de futuro em funil invertido em que ano após ano há uma perda sucessiva de rendimento ou até de qualidade de vida terá certamente consequências estruturais. A sociedade vai mudar em termos demográficos, na mentalidade, nas relações entre indivíduos e, naturalmente, nos comportamentos de consumo. Num contexto de carência é previsível uma reordenação das prioridades dos consumidores e uma realocação dos seus recursos entre categorias de gastos, assumindo uma postura mais crítica e racional nos momentos de compra.

Os consumidores estão cada vez mais a centrar a sua decisão no binómio satisfação de necessidade/custo, o que pode ajudar a explicar o alheamento emocional e consequente esvaziamento em termos de marcas em muitas categorias com consecutivo crescimento das marcas da distribuição (tópico a desenvolver em futuro post). Por outro lado, é comum, que em tempos de crise o corte no orçamento atinja desproporcionalmente o marketing, o que pode agravar o efeito negativo sobre as marcas. A verdade é que é possível cortar nos custos de comunicação mais facilmente e rapidamente do que nos custos de produção ou logísticos. Tal como a Harvard Business Review sugere, a gestão do orçamento e da estratégia de marketing em tempos de crise é exigente e desafiante pois existe uma grande tentação de valorizar excessivamente o curto prazo, esquecendo o conceito de valor de vida dos seus clientes/consumidores.

Em tempos de recessão económica, é de facto necessário cortar gorduras orçamentais e ser mais criterioso em termos dos gastos, exigindo um maior ROI e impacto mais imediato nas vendas dacomunicação e restantes iniciativas. Neste sentido, há um reforço da importância da gestão da variável preço face à concorrência, da calendarização da actividade promocional e da comunicação directa nos pontos de venda ou serviço, encurtando-se o espaço para o marketing indirecto como os patrocínios. Vejamos o exemplo recente das insígnias de comércio especializado que, apesar das fortes quebras que lhes são reconhecidas em 2012, têm vindo a tentar ter uma atitude muito proactiva na gestão da sua carteira dos seus clientes. Estas insígnias têm acelerado as actividades promocionais e a utilização de cupões promocionais, e-mail marketing e cartões de fidelização de forma a contornarem um pouco o abrandamento do Consumo.

A crise económica exige uma abordagem menos sexy, mais Pragmática e incisiva das marcas e empresas junto dos seus clientes, privilegiando a simplicidade e o curto prazo. Revisitar a teoria da hierarquia das necessidades de Maslow pode ajudar a compreender esta evolução já que num contexto de grande incerteza há um reforço da importância da busca básica pela Segurança (física e financeira).

Não obstante, apesar da Utopia e do Sonho, normalmente associados às marcas, serem miragens cada vez mais longínquas no horizonte, podem bem ser as únicas forças que nos poderão fazer continuar a caminhar…

Mixed Up?

Anúncios

4 thoughts on “A vida em funil

  1. Esta perspectiva de curto prazo na comunicação das marcas é absolutamente evidente quando na rádio ouvimos as grandes empresas de distribuição a comunicar que “Hoje” a carne de porco está com 15% de desconto. Parece-me que a comunicação das empresas está a tornar-se numa ferramenta diária de gestão de stocks. Muito interessante!

  2. Cada vez mais as decisões de actividade promocional são tomadas em parceria entre o Departamento Comercial e o Planeamento, gerindo cadência das vendas e obviamente stocks… Futuramente acredito que, em alguns casos, até o departamento Financeiro comece a propor actividades promocionais numa óptica de geração de fluxos de caixa… Novos tempos!

  3. O que vejo de positivo em toda essa crise que não assola apenas Portugal mas o planeta inteiro, é o que chamo o Marketing do Mal (o que tenta criar necessidades e o que força a compra de impulso) darem lugar ao Marketing do Bem, Aquele que é criado para resolver problemas reais.

    E nesse sentido está o que também chamo de Marketing Estático. Aquelas informações sobre produtos Empresas e Serviços que ficam estáticas em uma lista física ou em um Portal de Internet com a finalidade de informar aquele consumidor que pesquisa porque sabe exatamente o que quer e que é a pesquisa o meio de diminuir seus custos por possibiliatar a Compara Certa.

    A compra daquele produto que tanto empresas quanto consumidores finais realmente precisam e sem desperdícios tanto de tempo quanto de dinheiro.

    • É verdade Afonso, o Marketing invasivo e irrelevante tem os dias contados. Os consumidores estão cada vez mais exigentes e para merecer a sua atenção, as marcas e empresas terão de conquistar a sua confiança e relevância na sua vida. Num tempo de carência, em que os recursos não abundam apenas as marcas robustas em termos de benefícios, competitivas a nível de estrutura de custos e que consigam fazer uma ponto emocional com os consumidores, poderão aspirar a resistir e crescer. https://marketingmixedup.wordpress.com/2012/09/10/atencao-e-relevancia/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s